sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

HÁ NATAIS ASSIM...


Foi em Dezembro dia 8, fez 49 anos, que se deu a maior reviravolta na minha vida. Para esta história(a minha história de vida) nunca consegui fazer um verso ou até uma rima. Lembro-me como se fosse hoje, sinto saudades, mas não há dúvida que o tempo é um bom amigo.

Nasci,cresci e passei parte da minha juventude no seio da terceira idade. Os meus avós maternos e paternos. Os primeiros, o meu avô Antunes, homem alto, esguio, olhos claros, cabelo russo(sinal que era loiro) do tipo inglês. Pedreiro afamado e sócio fundador do Sporting, não perdia uma jogada.
Costumava sentar-me nas pernas e contava-me as histórias da sua juventude, que por vezes as alterava, e eu, como as sabia de cor, corrigia-o, perante o olhar maroto da minha avó.
Falava com a lua, quando estava com um grãozinho na asa e com o gato manjerico.
A avó Branca,(assim se chamava) era mulher baixa, gorducha, olhos grandes negros e cabelos muito brancos, cuidadosamente penteados e presos num carrapito. Usava um travessão em osso para prender algum cabelo mais pequeno, não fosse ele cair para cima da comida.
Era mulher de armas destemida. Chamavam-lhe a mulher dos sete ofícios. Fazia a roupa do meu avô e na doçaria, sabia fazer toda a qualidade de bolos. Trabalhava para fora, cozia pão, cuidava dos cento e tal vasos de flores e tratava do jardim. Era sem dúvida o jardim mais belo das redondezas.
Chamavam-lhe a Branca das flores, a Branca dos bolos a operadora de galinhas etc... operava as galinhas, quando estas ,deixavam de comer e como sabia que iam morrer arriscava. Muitas escapavam e começavam a comer.
Lembro-me, que quando cozia pão, guardava sempre um pedaço de massa ao qual juntava açúcar amarelo e azeite. Eram os nossos bolinhos!...e era uma alegria para nós. Quando os tirava do forno, atirava-os ao ar( pois estavam quentes) e eu saltitava de volta dela até os apanhar. Quando conseguia, como não aguentava o calor, aparava-os com o meu vestido. era sabido que ouvia logo um ralhete, pois sujava o vestido.
Era a avó Branca que os fazia. De chita ou popelina, com grandes laçarotes na cintura e alguns até tinham folhos.Fazia-me canudos no cabelo, que me davam pela cintura e por fim um grande laço branco na cabeça. Levantava-me ao ar para me ver rir e mesmo zangada, havia sempre um sorriso.
Era vê-la no Carnaval. Fazia bonecos com almofadas na cama da vizinha Carolina (e de outras vizinhas), colava os vasos dela com cimento e os das vizinhas ia pô-los longe. Mascarava-se e ia bater à porta das vizinhas, pois sabia que as assustava. Apanhava os lagartos vivos, embebedáva-os com aguardente, metia-os numa caixinha bonita e oferecia-os à vizinhança. Apanhava cobras vivas e enrolava-as ao pescoço, e eu, escondia-me debaixo da cama. O ultimo Carnaval mascarou-se com o fato de um vizinho, que era da guarda republicana. O senhor à espera do fato para ir trabalhar e ela com ele vestido. Era mesmo endiabrada.
Um dia muito séria disse-me:- Se me acontecer alguma coisa quero que vás para casa da tua avó Rosa.
Andava doente há já algum tempo,mas eu não me tinha apercebido. Gostava muito de dizer provérbios, como resposta às minhas perguntas.
- Não faças aos outros, aquilo que não queres que te façam a ti.
-Quem tudo quer tudo perde.
-Manhã de nevoeiro tarde de soalheiro.
Mas havia um que eu não entendia e que um pouco mais tarde acabei por entender e bem.
-À sorte e à morte ninguém escapa.
Começou por passar muito tempo deitada. Um dia,vi chegar uma ambulância, para a levar para o hospital de Lisboa.
Passados poucos dias voltou, mas continuava na cama. No dia 7 de Dezembro chamou-me e deu-me a minha prenda de anos antecipada. Umas meias de lã, verdes, até ao joelho.
Partiu a um Domingo dia 8 de Dezembro( dia da mãe) ás 18,30 horas.
Até hoje, mantenho a imagem dos ponteiros do relógio em letra romana, parados os dois juntos, quando afinal nós, nos tínhamos acabado de separar.

No dia 9 de Dezembro lá me levaram a acompanhar a avó até à ultima morada. Foi directamente de casa para lá, pois como não era casada com o avô, não teve direito de passar pela igreja e nem a padre.
No dia 11 a minha mãe ainda lá estava e foi aí que eu pensei... se calhar vai levar-me com ela para Lisboa. Enganei-me. O que a avó deixou dito era praticamente uma escritura.
Depois de desocupar a casa( pois era alugada) de me queimarem os meus livros da escola, a minha boneca, que a avó tinha feito e bordado os olhos, de partirem as flores que ela tanto adorava, a minha mãe disse-me, que se ia embora e que levava a minha irmã.
No dia 12 a minha mãe foi-se embora com a minha Fernanda, e eu, fiquei estática na paragem a olhar para as duas.
Como os meus pais eram separados e era impensável ser a minha mãe a entregar-me, foi uma vizinha que foi comigo até a casa dos avós paternos, que moravam no campo.
Foi a avó Rosa que veio receber-me de braços abertos.
Ali tudo era estranho. Até aquela altura, vivi, sempre na vila. A casa da avó Branca era pobre, mas tinha electricidade, água canalizada, uma casa de banho embora pequena, um fogão a lenha onde aquecia a água para os banhos etc...
Ali não havia nada, era no campo, só se via as luzes da vila(ao longe) era escuro como breu, não havia água canalizada, era a do poço, não havia casa de banho, eu tinha que ir ao esterco, a luz era candeeiro a petróleo. Tomava banho num alguidar de zinco e a cama era um colchão de palha de centeio. Até da minha sombra eu tinha medo. Adormecia a chorar e acordava quase sem voz.
A avó não descansou, enquanto não me arranjou, um colchão feito de camisas ripadas e que era bem fofinho.Ela queria me ver contente. Naquela noite embora adormecesse a chorar sentia-me nas nuvens.
Entretanto chegou a véspera de Natal, e eu perguntava para mim, porque é que me tinham tirado tudo? Eu só pensava que não ia ter a boneca de trapos com os olhos bordados pela avó,não ia pôr a bota na chaminé, para de manhã ir buscar a prenda,não ia ver a alegria da minha irmã, quando desembrulhasse a prenda, não ia com o meu avô à paragem da camioneta, para ir buscar a minha mãe, que eu tanto adorava e que era hábito, ir passar o Natal connosco. Também não ia ouvir as histórias do avô nessa noite, nem ia ter as filhós pequeninas feitas pela avó.
Pelo que me apercebi os meus avós paternos, passavam o Natal sózinhos e no dia de Natal os filhos iam lá almoçar. Fui-me deitar por volta das 11 horas, agarrada á minha prenda de anos, que a avó Branca me dera, a chorar e a perguntar porque me tiraram tudo.
Na manhã seguinte quando acordei, aos pés da minha cama tinha uma prenda, a primeira para o meu enxoval. A avó Rosa não se esqueceu. Até o avô Hermano que não ligava a essas coisas veio ver qual a minha reacção.
Os dias, meses, anos, foram passando sem eu saber mais nada da minha mãe e da minha irmã.
Quando fiz 17 anos recebi uma carta com uma foto da minha mãe. Fiquei felicissima e mostrei à minha avó. Ela com a lágrima no olho disse-me:- Olha filha, mãe nem que seja uma pedra. A seguir disse-me que só tinha pena, que eu tenha passados anos a escrever-lhe e ela não me tivesse dado resposta.

Passados quase 20 anos, faltaram apenas alguns dias, precisamente a um Domingo e ás 18,30 nasceu a minha princesa. Coincidência? Não sei. É mais uma dúvida para juntar a tantas outras que me acompanham ao longo da vida. 
Os anos foram passando e o que ficou de tudo foi saudade das avós mas principalmente da avó Branca. Talvez seja por tudo isso que eu detestava o Natal e desde que os meus filhótes nasceram eu sempre os incentivei.
Talvez por tudo isso quando faço rissóis(que chego a fazer 70) faço sempre miniaturas( como a avó fazia) de 3 ou 4 tamanhos.
Que quando faço bolachas faço bonecas de tranças e bonecos.
Que acabei descobrindo, que consigo fazer qualquer tipo de bolo, tarte, pão, salgados, bolos de aniversário etc...e tudo me sai bem.
Talvez seja por isso, que faço qualquer tipo de costura aventais, sacos de molas, calças, camisas, vestidos de bebé e quando não sei invento. A avó Branca era assim.
Agora que tenho netos, faço bolinhos pequeninos, bonecos de bolo, pãezinhos de azeite e mel, e este Natal talvez vá vestir o fato de pai Natal e distribuir as prendas e até talvez vá roubar um fato de G.N.R. e vá brincar ao Carnaval com os netos.
Talvez por tudo isso, que eu adoro a 3ª idade, que tenho 2 filhos maravilhosos, dois netos lindos e que tenho esta alma com alguma nostalgia.
Talvez seja por tudo isso que eu não consigo chorar faz tempo.
E talvez seja por tudo isto que eu gostava, que fosse Natal todos os dias, que todos os Natais tivessem crianças e que todas as crianças tivessem amor.
Há Natais assim, que nos acompanham até ao final da nossa existência.

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

DÁ-ME

 
Dá-me Deus um céu assim
Sem negrume sem ter cor
E dá-me um pouco de mim
Sem mágoas e sem ter dor

Dá-me lágrimas que quero
E não consigo chorar
E diz-me o que espero
Com todo este  penar

Dá-me luz p'ra perceber
Porque estou tão magoada
E cansada de viver
Esta vida amargurada

Dá-me Deus a sepultura
Para enterrar a valer
As mágoas e a amargura
Que ainda me fazem sofrer

Dá-me a mãe que não tive
Para eu poder calar
A pena que ainda vive
Dentro de mim a gritar

Dá-me bálsamo para a cruz
Que estou a carregar
E se é que existes Jesus
Dá-me um pouco de luz
Para em ti acreditar.

segunda-feira, 6 de junho de 2016

SE EU FOSSE POETISA



Se eu fosse poetisa
Voava nas asas do vento
Percorria o firmamento
Em ondas de nostalgia

Nas ondas do mar lavaria
As mágoas o meu penar
E na areia escreveria
Histórias de encantar

Até nas pedras do chão
Eu iria desenhar
Os olhos do coração
Que me fizeram sonhar

Cobriria de cetim
As ondas desse teu mar
Pintaria de jasmim
O brilho do teu olhar

Em meu coração a pulsar
Dentro da minh'alma nua
Eu iria acorrentar
A minha alma à tua

Se eu fosse poetisa
Dia de vento ou calor
Serias a minha brisa
E eu, o teu poema d'amor.

terça-feira, 10 de maio de 2016

DEPOIS DE UM ADEUS


Porque é que o dia a luz
Me fere assim o olhar
Porque é que tenho uma cruz
E não consigo rezar

Porque a dor me atormenta
A alma a toda a hora
Porque ainda me sustenta
E não se vai logo embora

Porque tem que me ferir
Com tanta intensidade
Porque me mata o sentir
E não me mata a saudade

Porque tenho este tormento
A viver dentro de mim
Porque não chega o momento
De destinar o meu fim

Porque me faz perecer
A alma em cada dia
Veste o meu corpo e meu ser
De sombras e nostalgia

Porque é que depois dum adeus
Meus sonhos querem emergir
Ao brilho dos olhos teus
Quando se encontram nos meus
Na loucura do sentir.
 

terça-feira, 26 de abril de 2016

SÃO PALAVRAS


São palavras de ternura
Que já não ousas dizer
Que transportavam doçura
Loucura e até prazer

É o ciúme é a dor
Que o teu silêncio me deu
Se acaso tens outro amor
Com mais ardor do que eu

É a minha louca vontade
De te ver de te abraçar
E a raiva desta verdade
De tanto te querer amar

São os sonhos e os desejos
Que tu despertaste em mim
Com a doçura dos beijos
Que guardo no meu jardim

É esta angústia que teço
Me acorda de madrugada
Com certeza que mereço
E sou talvez a culpada

São madrigais do sentir
Que não param de tecer
Amarguras a florir
Só p'ra me fazer sofrer.